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coisinha, fogueira, guarda-roupa, irmão, janela, mansão, mata, noite, quarto, tambores, tochas, Uri
Claro. Como eu fora tão ingênuo a ponto de acreditar que Uri ficaria calado por tanto tempo? Nem parecia que eu já convivia com ele há extensos seis anos. O pior, acreditem, não era o fato de ele ter desaparecido. Confesso que algumas vezes eu mesmo desejava que ele sumisse, ainda que fosse por alguns minutos. O problema, no caso, era que se Uri resolvesse se perder naquela mansão, quem levaria a bronca da mamãe seria eu. Como vocês sabem, os filhos mais velhos sempre são os culpados.
– Uri! Uri! Para com isso, agora não é hora de brincar. A mamãe mandou a gente dormir. – gritei, já prevendo que gastaria meus pulmões à toa.
Gastei meus pulmões à toa. Provavelmente meu querido maninho já estaria longe dali naquele momento, por certo perambulando sem rumo pelos imensos corredores, fuçando cômodo após cômodo em busca de algo que pudesse destruir, até o momento em que fosse avistado pela mamãe, que então o traria para o quarto e arrancaria as minhas orelhas por não ter tomado conta dele. Legal.
Enquanto eu me distraíra imaginando toda a desventurada cena, David permanecera estanque diante da janela. Não sei o que podia haver de tão atraente naquela floresta escura, mas David não precisava de algo necessariamente interessante para se perder em seus pensamentos. De qualquer maneira, me irritei por ele ficar ali parado ignorando a situação. Tudo tem um limite!
– David! Não tá vendo que o Uri sumiu daqui? Me ajuda a procurar ele!
Ele sequer olhou para mim. Continuou virado para a janela, observando a interessantíssima coreografia que os galhos das árvores faziam ao serem balançados pelo vento. Bufei, resignado. Não podia contar com ele. Estava sozinho, mais uma vez. Dei dois passos em direção à porta, pronto para ir atrás da coisinha (um apelido carinhoso que dei ao Uri) e dar-lhe um beliscão assim que tivesse oportunidade.
– Eu sei. – ouvi a voz de David, e então parei e olhei para ele, que jazia diante da janela – Ele entrou ali.
David apontou com o indicador para o guarda-roupa. Revirei os olhos. Era típico do Uri fazer algo assim. Respirei fundo e caminhei até o móvel, abrindo logo uma das dezenas de portas que ele tinha (pois Uri não tinha deixado aberta a porta pela qual passara). O que encontrei naquela parte, porém, não foi a coisinha, mas sim uma fileira de grossos casacos de inverno pendurados em cabides. Tudo bem, temos invernos gelados no sul, mas aqueles casacos deviam ser exageradamente quentes. Curioso, retirei um deles ali de dentro. Era longo e bastante pesado, embora consideravelmente macio. Era imponente também – parecia digno da realeza de algum país europeu. Resolvi experimentá-lo e, para minha surpresa, me servia perfeitamente. Era como se tivesse sido feito sob medida para mim.
Tirei o casaco (eu iria derreter se continuasse vestido com ele) e o recoloquei no cabide. Espiei para dentro do guarda-roupa, mas não pude ver nada, pois estava muito escuro. O jeito era entrar. Jurei que Uri ia me pagar por aquilo. Mas se ele não estivesse ali…
– Uri! – chamei, já caminhando por entre os casacos dentro do guarda-roupa (e obviamente tendo deixado a porta aberta atrás de mim) – Sei que você tá aqui. Anda, aparece, a gente tem que ir dormir.
Não houve resposta. Na verdade, não sei se ele chegara a me ouvir, pois os casacos talvez estivessem abafando minha voz. Com certo esforço, caminhei mais para dentro, notando que a fileira de casacos não tinha fim. Não sei dizer por quanto tempo fiquei ali ou quantos centímetros consegui avançar, mas o fato era que eu parecia não estar nem perto de uma das extremidades do móvel. Com o coração um tanto acelerado e algumas gotas de suor escorrendo no rosto, comentei comigo mesmo:
– Esse guarda-roupa é enorme!
– Foi o que eu disse… – ouvi uma voz aguda, tipicamente melosa, perto de mim. Era Uri.
Uri estava choramingando, encolhido em um canto bem abaixo da fileira de casacos. Havia entrado ali e, ao ter fechado a porta, acabara se perdendo na escuridão e na imensidão do interior do móvel.
– Está vendo, isso é o que acontece por não parar quieto! Você não sabe que não se deve se fechar dentro de um guarda-roupa? – o repreendi com razão.
Ele limitou-se a continuar choramingando (sabia que a culpa era dele mesmo) e então o segurei pela mão e fiz o caminho de volta, até avistar a luz que vinha da porta que eu deixara aberta. Saí com Uri do guarda-roupa e, graças ao susto que ele tomara ao ficar preso ali, não precisei dizer coisa alguma para que ele fosse para a cama. Pedi que David também fosse se deitar (ao que ele felizmente atendeu, por fim saindo da frente daquela janela), troquei de roupa, apaguei a luz e me joguei na cama. Enfim, o sono dos justos…
tum
Tum
TUM
Os grilos abrem frinchas no silêncio. Os grilos trincam as vidraças negras da noite.
Um barulho diferente me fez despertar, embora parecesse um pouco distante. Me sentei na cama, incomodado, ouvindo aquele som que parecia ser de… tambores? Esfreguei os olhos e procurei meu relógio. Já era madrugada. Quem eram os infelizes que resolveram ficar tocando tambor àquela hora? Deitei de novo e coloquei o travesseiro em cima da cabeça, tentando cobrir minhas orelhas. Não adiantou. Era como se os tambores estivessem retumbando dentro da minha cabeça e chacolhando até meu cérebro. Sentei novamente e suspirei.
– São eles! – David disse, já se sentando na cama. Provavelmente ele também não estava conseguindo dormir.
– Eles quem? – perguntei, em voz baixa para não acordar o Uri.
David apontou para a janela. Pulei da cama e fui até ela, David ao meu lado. Em um ponto distante, para além do bosque que ficava de frente para aquela parte da mansão (que era, na realidade, os fundos), um brilho forte, como que de várias tochas acesas, tingia a mata de um tom dourado. Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas tive certeza de que aquele local, ainda que um tanto afastado, fazia parte das terras do tio Isaac. Ou melhor, das nossas terras. A impressão que se tinha ao se olhar dali era que estavam fazendo uma enorme fogueira no meio da mata. E eu sabia muito bem que não se deve fazer fogueiras na mata!
Corri até minha mochila (por sorte ela estava no quarto) e peguei minha lanterna. Sim, é isso mesmo que vocês estão pensando. Eu não podia deixar aquilo barato. E se fosse algo perigoso? Um bando de criminosos ou coisa do gênero? Se eu descobrisse o que era, podia chamar a polícia a tempo de pegá-los. E, a propósito, não teria problema algum ir lá para fora àquela hora. Se pensarem bem, eu sequer estaria saindo do quintal de casa. Além disso, se tratava de uma genuína aventura!
– Eu também vou. – David disse, antes que eu tivesse falado qualquer coisa – Quero saber o que eles estão fazendo.
Não pude impedi-lo, embora eu preferisse ir sozinho. Se o deixasse ali, David podia dar com a língua nos dentes e aí eu estaria encrencado. Vestimos roupas adequadas, saímos do quarto e caminhamos silenciosamente pelo longo corredor escuro até chegarmos à escada. Com sorte todos estariam dormindo um sono profundo (inclusive os três mordomos esquisitos), apesar do barulho dos tambores (se é que eram mesmo tambores). Descemos a escada. Ali dentro, tudo permanecia em silêncio. Sorri e abri a porta da frente com cuidado, temendo que ela rangesse. Conseguimos. Agora, uma singela aventura nos aguardava…
