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chácara, floresta, fogo, fogueira, garota, herança, língua exótica, música, pessoas intrometidas, tambores, tio Isaac, tochas
Os ventos vêm e batem-me à janela:
“A tua vida, que fizeste dela?”
E chega a morte: “Anda! Vem dormir…
Faz tanto frio… E é tão macia a cama…”
Mas toda a longa noite inda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama…
Tudo bem, eu admito: andar naquele mato não era tão fácil quanto parecia. Na verdade, eu tinha pensado que havia trilhas na floresta pelas quais poderíamos chegar, com facilidade, pelo menos bem próximo de onde avistáramos o fogo. Como pode imaginar, esse não era o caso, e agora estávamos nos embrenhando naquele bosque enorme sem sequer saber se seguíamos na direção certa. A luz da lanterna não ajudava muito, embora nos permitisse evitar tropeções nas raízes das árvores.
Contudo, não chegamos a ficar totalmente perdidos. Primeiro porque David tinha um incrível senso de direção; ele saberia exatamente para onde ir caso tivéssemos que voltar para a mansão. Também porque, embora não pudéssemos enxergar muita coisa, bastava que seguíssemos o som dos tambores, que aumentava mais e mais à medida que avançávamos (sinal de que, de alguma forma, estávamos nos aproximando de nosso destino). E foi o que fizemos.
David parecia estar gostando de nossa pequena aventura na floresta, o que para mim era uma grande surpresa. Ou não tão grande assim, considerando que ele estava curiosíssimo e queria saber o que eram e qual era o objetivo daquelas tochas, ou fogueiras, ou o que quer que fossem, além, é claro, dos tambores. Não que eu também não quisesse, mas a curiosidade de David costumava mover montanhas. Ele não se cansaria e não mediria esforços para descobrir do que se tratava. E, naquele caso, eu muito menos. Se havia sujeitos aprontando dentro da nossa chácara, era melhor sabermos logo para chamar a polícia o quanto antes.
O som dos tambores já estava bem alto, e pudemos ver, a alguns poucos metros, a luz do fogo brilhando por detrás de algumas árvores. Parei ali por um instante e segurei David pelo braço para pará-lo também. É óbvio que teríamos que chegar mais perto da clareira, pois daquele ponto não veríamos nada devido aos troncos das árvores.
— A gente não pode fazer barulho nenhum. Entendeu? – eu disse baixinho.
David balançou a cabeça, concordando, e eu fiquei satisfeito. Então, assim que desliguei a lanterna, demos os primeiros passos lentamente, com o máximo de cuidado para que o som das folhas secas sendo esmagadas sob nossos pés não nos denunciasse. Meu coração batia acelerado. Precisei me conter para não deixar minha respiração se tornar ofegante demais. Os tambores continuavam sendo tocados, aparentemente de uma maneira ainda mais intensa. Comecei a ter os primeiros vislumbres do fogo da clareira, agora a não mais que cinco metros de distância. Estávamos prestes a desvendar o mistério…
O que aconteceu em seguida foi rápido demais para que eu assimilasse no momento. Algo pulou em cima de mim e me derrubou no chão. Eu quis gritar, mas não consegui, pois quando percebi minha boca estava sendo tampada. Vi David observando a cena sem reação; fiz sinal com a mão, do jeito que pude, para que ele corresse e chamasse ajuda, mas ele não compreendeu. Me debati, na expectativa de que conseguisse escapar; foi em vão. Uma voz sussurrou perto do meu ouvido:
— Promete que não vai gritar se eu te soltar?
Concordei com um meneio de cabeça bem reduzido. Lentamente, a mão foi sendo retirada do meu rosto. Quando me senti livre, me levantei num pulo e corri para perto de David, tentando me afastar do sujeito que me derrubara. Na verdade, não era bem um sujeito. Não dava para ver direito, mas a figura à minha frente se delineava o suficiente para que eu a reconhecesse como sendo um garota (para meu verdadeiro espanto).
— Mas o que…? Por que você fez isso? – perguntei, confuso, sem medir o tom de voz.
— Ssssssssssssh! – ela respondeu, e pude ver, pela silhueta, que ela colocara o dedo indicador sobre os lábios – Quer que me descubram aqui? A menos que vocês também estejam com eles…
Eu soube que a garota se referia aos sujeitos que haviam acendido o fogo e que tocavam os tambores, embora ainda não soubesse quem eles eram e o que faziam ali. Isso, ao menos, indicou que ela não fazia parte do grupo. Mas se ela não estava com eles, então de onde era e o que estava fazendo na nossa chácara?
— Não, não estamos com “eles”, seja lá quem “eles” forem. – retruquei, já num tom mais baixo e ao mesmo tempo mais sarcástico – Mudamos para esta chácara ontem. Estávamos dormindo quando ouvimos o barulho dos tambores e vimos o fogo pela janela.
A garota ficou em silêncio por alguns instantes, como que assimilando o que eu acabara de dizer. Então, deu dois passos e parou bem na minha frente. Ela disse, dessa vez quase num sussurro, e pude ver seus olhos brilhando aos poucos raios de luz que penetravam na floresta:
— São parentes do Seu Isaac?
Meneei a cabeça afirmativamente. David fitava a clareira, ignorando a pergunta.
— Era nosso tio-avô. Com a morte dele, papai herdou a chácara. Portanto, agora ela é nossa e…
— Ele não morreu! – a garota praticamente berrou, e imediatamente cobriu a boca com as mãos; olhou com apreensão para a clareira e depois novamente para mim, continuando num tom mais baixo – Ele não morreu. Isso foi o que disseram, mas você não acha estranho não ter havido um velório ou algo do tipo?
— Bem, ele vivia sozinho. Não tinha contato com ninguém da família. Por motivos óbvios, ninguém organizou um velório. E é claro que ele morreu. O advogado foi até a nossa casa para nos mostrar o testamento.
— Ah é? Se ele morreu, então, onde é que o corpo dele foi enterrado? O advogado não disse?
Gastei alguns segundos tentando me recordar da visita do advogado (que fora há dois meses) e do que ele dissera. Mas, não, ele não havia dito coisa alguma sobre o local em que o tio Isaac havia sido enterrado. Talvez porque papai sequer tivesse se dado ao trabalho de perguntar. Entendam, não é que fôssemos desprovidos de sentimentos; o fato era que o tio Isaac, apesar do parentesco, era praticamente um estranho. Eu não sabia por que ele tinha deixado a chácara justamente para nós, mas isso não mudava em nada a relação praticamente nula que tivéramos com ele.
— Não, não disse, mas também não interessava saber. – respondi com certa impaciência.
— Claro. Pelo visto, vocês não puxaram nada dele. São uns egoístas mesquinhos que só pensam em si mesmos.
— Escuta aqui…
— Olha, não vou perder tempo discutindo com você, tá bom? A verdade é que o Seu Isaac não tá morto, e eu vou descobrir o que fizeram com ele. Se não quer acreditar, paciência. Volta lá pro seu novo casarão e aproveita bem o seu luxo até que deem sumiço em você também.
Ela nos deu as costas e começou a caminhar na direção contrária de onde estávamos, margeando a beira da floresta e tentando espiar a clareira. É lógico que o que ela dissera não tinha qualquer cabimento. Ninguém herda alguma coisa de alguém que ainda está vivo. Para que se tome posse de uma herança, o autor do testamento deve ter morrido. De qualquer modo, não posso dizer que não fiquei (um pouco) curioso com aquela história. Mais que isso: como a garota sabia tanto sobre o tio Isaac? Pela maneira como havia falado, ela parecia gostar muito dele. Mas pelo que eu ouvira dizer, ele era um velhote solitário que dificilmente saía de casa. As peças não estavam se encaixando. E agora eu não poderia deixar que ela fosse sem que desse os devidos esclarecimentos.
— Espera! – chamei, mas não tão alto, andando rápido na direção da garota e puxando David comigo – Você conhecia o tio Isaac?
Ela parou e se virou, me encarando de um jeito que deixava claro que não tinha ido com a minha cara. Notei que ela não era muito mais alta que eu.
— Claro que sim. Conheço ele desde bem pequena. Ele costumava reunir as crianças da região no casarão. Contava histórias pra gente, depois mandava os mordomos encherem a mesa de coisas gostosas, e então a gente lanchava… Mas por que o interesse agora?
— Por nada. É que achei estranho você ter entrado na nossa chácara sem permissão, ainda mais em plena madrugada. A propósito, onde é que você mora? Seus pais deixam você passear no mato assim, no meio da noite?
Ela suspirou e respondeu, impaciente:
— Eu moro na chácara da frente, do outro lado da estrada, e… Quer saber, não te interessa! Mas já que eu tô na sua chácara, vou dizer o que vim fazer aqui. Desconfio que os sujeitos dos tambores têm alguma coisa a ver com o sumiço do Seu Isaac. Por isso decidi que hoje viria investigar. Não podia imaginar que ia encontrar os novos donos da chácara…
Revirei os olhos, indignado com o modo idiota como ela dissera “novos donos”. Porém, decidi ignorar. Afinal, eu não estava ali para perder tempo com uma garota intrometida e metida a besta. Mesmo assim, arrisquei mais uma pergunta (quanto mais informações eu tivesse, melhor).
— Certo. Mas qual é a desses caras?
— Eu não sei. Começaram a aparecer por aqui desde a noite do desaparecimento do Seu Isaac. Por isso desconfio deles. Vêm uma vez por semana, sempre nas madrugadas de domingo. Fazem a fogueira, acendem as tochas, tocam os tambores e cantam músicas esquisitas, como essa que estão cantando agora.
Só então me dei conta de que eles cantavam uma canção. E era realmente estranha, tanto na melodia quanto na letra, proclamada em uma língua tão exótica que nem mesmo David (que era apaixonado por idiomas e gostava de estudar todos os que pudesse) conseguiu entender – esse, aliás, devia ter se tornado o motivo do interesse dele a respeito do que acontecia na clareira. Eu, no entanto, começava a cogitar algumas possibilidades. Se aqueles eventos na floresta fossem algum tipo de ritual religioso estranho, havia a chance de que os sujeitos estivessem envolvidos na morte do tio Isaac, o que seria algo horrível, por sinal, e um verdadeiro caso de polícia (e, não, eu não estava dando muito crédito à história de que meu tio-avô havia simplesmente sumido e dado como morto, num plano meticulosamente arquitetado por uma mente maligna com objetivos escusos).
Eu coçava o queixo e mirava o vazio, enquanto minha mente era infestada de teorias. Entretanto, minha linha de raciocínio foi interrompida graças à voz irritante da garota.
— Se estão pensando em espiar, não vão conseguir nada desse lado. Aliás, vão conseguir ser descobertos…
— E o que sugere então, senhorita sabichona? – voltei ao tom sarcástico.
— Você fala de um jeito tão esquisito, sabia? Mas o que eu sugiro, garotinho invocado, é que vocês espiem da colina que tem ali na frente. – ela respondeu, apontando na direção de uma pequena elevação mais à frente.
Garotinho? Ela não parecia ser mais velha que eu! Apesar do insulto, resolvi ignorar novamente. Sem dizer palavra, comecei a caminhar rumo à colina, fazendo sinal para que David me seguisse. Porém, ela nos interrompeu.
— Mas é claro que eu também vou espiar dali. Por isso, se minha presença for um incômodo, é melhor acharem outro canto seguro pra espiar ou voltarem pro conforto do bercinho de vocês.
Agora ela havia passado dos limites!
— Escuta aqui…
— Já disse que não vou discutir. Não tenho tempo a perder.
Antes que eu respondesse, ela já havia dado passos largos (e silenciosos) na direção da colina. Lógico que eu não estava nem um pouco contente com a arrogância daquela sujeitinha, e comecei a pensar seriamente em vasculhar a floresta e achar outro lugar para ficarmos, de preferência bem longe daquela colina. David puxou o meu braço.
— Ela tá certa. A gente veio investigar, não brigar. Eu vou pra lá. – ele disse, e foi para a colina sem esperar resposta.
Bufei e cruzei os braços, me recusando, a princípio, a ficar perto da garota metida. Mas como não havia outro remédio, me vi obrigado a me dirigir à bendita colina. Tudo bem que não sei se eu conseguiria achar o caminho de volta sozinho. Mas não foi por isso que desisti da ideia de encontrar outro lugar. Juro que não foi! Sabe como é, eu não poderia ir para outro lugar e deixar David ali. Se ele se perdesse (o que dificilmente aconteceria, mas eu preferia não correr o risco), ou se algo lhe acontecesse, eu estaria encrencado.
— Então, estão vendo alguma coisa? – perguntei, me agachando ao lado deles e espiando por entre os troncos das árvores.
Imaginei ter notado um sorriso de vitória no rosto da garota. Tudo bem. Com sorte, eu não teria o desprazer de encontrá-la outra vez depois daquela noite.
