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	<title>Pomo Negro</title>
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		<title>Elvis não morreu?</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 22:31:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samuel Stein</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de Samuel Stein]]></category>
		<category><![CDATA[chácara]]></category>
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		<description><![CDATA[Os ventos vêm e batem-me à janela: &#8220;A tua vida, que fizeste dela?&#8221; E chega a morte: &#8220;Anda! Vem dormir&#8230; &#8230;<p><a href="http://pomonegro.wordpress.com/2012/02/02/elvis-nao-morreu/">Continuar lendo &#187; </a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=69&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-29" title="Novo post" src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg?w=150&#038;h=150" alt="Post" width="150" height="150" /></a></span></p>
<p align="JUSTIFY">Os ventos vêm e batem-me à janela:<br />
&#8220;A tua vida, que fizeste dela?&#8221;<br />
E chega a morte: &#8220;Anda! Vem dormir&#8230;</p>
<p align="JUSTIFY">Faz tanto frio&#8230; E é tão macia a cama&#8230;&#8221;<br />
Mas toda a longa noite inda hei de ouvir<br />
A inquieta voz dos ventos que me chama&#8230;</p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Tudo bem, eu admito: andar naquele mato não era tão fácil quanto parecia. Na verdade, eu tinha pensado que havia trilhas na floresta pelas quais poderíamos chegar, com facilidade, pelo menos bem próximo de onde avistáramos o fogo. Como pode imaginar, esse não era o caso, e agora estávamos nos embrenhando naquele bosque enorme sem sequer saber se seguíamos na direção certa. A luz da lanterna não ajudava muito, embora nos permitisse evitar tropeções nas raízes das árvores.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Contudo, não chegamos a ficar totalmente perdidos. Primeiro porque David tinha um incrível senso de direção; ele saberia exatamente para onde ir caso tivéssemos que voltar para a mansão. Também porque, embora não pudéssemos enxergar muita coisa, bastava que seguíssemos o som dos tambores, que aumentava mais e mais à medida que avançávamos (sinal de que, de alguma forma, estávamos nos aproximando de nosso destino). E foi o que fizemos.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">David parecia estar gostando de nossa pequena aventura na floresta, o que para mim era uma grande surpresa. Ou não tão grande assim, considerando que ele estava curiosíssimo e queria saber o que eram e qual era o objetivo daquelas tochas, ou fogueiras, ou o que quer que fossem, além, é claro, dos tambores. Não que eu também não quisesse, mas a curiosidade de David costumava mover montanhas. Ele não se cansaria e não mediria esforços para descobrir do que se tratava. E, naquele caso, eu muito menos. Se havia sujeitos aprontando dentro da </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>nossa </em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;">chácara, era melhor sabermos logo para chamar a polícia o quanto antes.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">O som dos tambores já estava bem alto, e pudemos ver, a alguns poucos metros, a luz do fogo brilhando por detrás de algumas árvores. Parei ali por um instante e segurei David pelo braço para pará-lo também. É óbvio que teríamos que chegar mais perto da clareira, pois daquele ponto não veríamos nada devido aos troncos das árvores.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">A gente não pode fazer barulho nenhum. Entendeu? – eu disse baixinho.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">David balançou a cabeça, concordando, e eu fiquei satisfeito. Então, assim que desliguei a lanterna, demos os primeiros passos lentamente, com o máximo de cuidado para que o som das folhas secas sendo esmagadas sob nossos pés não nos denunciasse. Meu coração batia acelerado. Precisei me conter para não deixar minha respiração se tornar ofegante demais. Os tambores continuavam sendo tocados, aparentemente de uma maneira ainda mais intensa. Comecei a ter os primeiros vislumbres do fogo da clareira, agora a não mais que cinco metros de distância. Estávamos prestes a desvendar o mistério&#8230;</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">O que aconteceu em seguida foi rápido demais para que eu assimilasse no momento. </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>Algo</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> pulou em cima de mim e me derrubou no chão. Eu quis gritar, mas não consegui, pois quando percebi minha boca estava sendo tampada. Vi David observando a cena sem reação; fiz sinal com a mão, do jeito que pude, para que ele corresse e chamasse ajuda, mas ele não compreendeu. Me debati, na expectativa de que conseguisse escapar; foi em vão. Uma voz sussurrou perto do meu ouvido:</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Promete que não vai gritar se eu te soltar?</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Concordei com um meneio de cabeça bem reduzido. Lentamente, a mão foi sendo retirada do meu rosto. Quando me senti livre, me levantei num pulo e corri para perto de David, tentando me afastar do sujeito que me derrubara. Na verdade, não era bem um </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>sujeito</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;">. Não dava para ver direito, mas a figura à minha frente se delineava o suficiente para que eu a reconhecesse como sendo um garota (para meu verdadeiro espanto).</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Mas o que&#8230;? Por que você fez isso? – perguntei, confuso, sem medir o tom de voz.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Ssssssssssssh! – ela respondeu, e pude ver, pela silhueta, que ela colocara o dedo indicador sobre os lábios – Quer que me descubram aqui? A menos que vocês também estejam com </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>eles</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;">&#8230; </span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Eu soube que a garota se referia aos sujeitos que haviam acendido o fogo e que tocavam os tambores, embora ainda não soubesse quem </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>eles</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> eram e o que faziam ali. Isso, ao menos, indicou que ela não fazia parte do grupo. Mas se ela não estava com eles, então de onde era e o que estava fazendo na nossa chácara?</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Não, não estamos com “eles”, seja lá quem “eles” forem. – retruquei, já num tom mais baixo e ao mesmo tempo mais sarcástico – Mudamos para esta chácara ontem. Estávamos dormindo quando ouvimos o barulho dos tambores e vimos o fogo pela janela.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">A garota ficou em silêncio por alguns instantes, como que assimilando o que eu acabara de dizer. Então, deu dois passos e parou bem na minha frente. Ela disse, dessa vez quase num sussurro, e pude ver seus olhos brilhando aos poucos raios de luz que penetravam na floresta:</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">São parentes do Seu Isaac?</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Meneei a cabeça afirmativamente. David fitava a clareira, ignorando a pergunta.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Era nosso tio-avô. Com a morte dele, papai herdou a chácara. Portanto, agora ela é nossa e&#8230;</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Ele não morreu! – a garota praticamente berrou, e imediatamente cobriu a boca com as mãos; olhou com apreensão para a clareira e depois novamente para mim, continuando num tom mais baixo – Ele não morreu. Isso foi o que disseram, mas você não acha estranho não ter havido um velório ou algo do tipo?</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Bem, ele vivia sozinho. Não tinha contato com ninguém da família. Por motivos óbvios, ninguém organizou um velório. E é claro que ele morreu. O advogado foi até a nossa casa para nos mostrar o testamento.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Ah é? Se ele morreu, então, onde é que o corpo dele foi enterrado? O advogado não disse?</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Gastei alguns segundos tentando me recordar da visita do advogado (que fora há dois meses) e do que ele dissera. Mas, não, ele não havia dito coisa alguma sobre o local em que o tio Isaac havia sido enterrado. Talvez porque papai sequer tivesse se dado ao trabalho de perguntar. Entendam, não é que fôssemos desprovidos de sentimentos; o fato era que o tio Isaac, apesar do parentesco, era praticamente um estranho. Eu não sabia por que ele tinha deixado a chácara justamente para nós, mas isso não mudava em nada a relação praticamente nula que tivéramos com ele.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Não, não disse, mas também não interessava saber. – respondi com certa impaciência.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Claro. Pelo visto, vocês não puxaram nada dele. São uns egoístas mesquinhos que só pensam em si mesmos.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Escuta aqui&#8230;</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Olha, não vou perder tempo discutindo com você, tá bom? A verdade é que o Seu Isaac não tá morto, e eu vou descobrir o que fizeram com ele. Se não quer acreditar, paciência. Volta lá pro seu novo </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>casarão</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> e aproveita bem o seu </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>luxo</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> até que deem sumiço em você também.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Ela nos deu as costas e começou a caminhar na direção contrária de onde estávamos, margeando a beira da floresta e tentando espiar a clareira. É lógico que o que ela dissera não tinha qualquer cabimento. Ninguém herda alguma coisa de alguém que ainda está vivo. Para que se tome posse de uma herança, o autor do testamento deve ter morrido. De qualquer modo, não posso dizer que não fiquei (um pouco) curioso com aquela história. Mais que isso: como a garota sabia tanto sobre o tio Isaac? Pela maneira como havia falado, ela parecia gostar muito dele. Mas pelo que eu ouvira dizer, ele era um velhote solitário que dificilmente saía de casa. As peças não estavam se encaixando. E agora eu não poderia deixar que ela fosse sem que desse os devidos esclarecimentos.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Espera! – chamei, mas não tão alto, andando rápido na direção da garota e puxando David comigo – Você conhecia o tio Isaac?</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Ela parou e se virou, me encarando de um jeito que deixava claro que não tinha ido com a minha cara. Notei que ela não era muito mais alta que eu.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Claro que sim. Conheço ele desde bem pequena. Ele costumava reunir as crianças da região no casarão. Contava histórias pra gente, depois mandava os mordomos encherem a mesa de coisas gostosas, e então a gente lanchava&#8230; Mas por que o </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>interesse</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> agora?</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Por nada. É que achei estranho você ter entrado na </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>nossa</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> chácara sem permissão, ainda mais em plena madrugada. A propósito, onde é que você mora? Seus pais deixam você passear no mato assim, no meio da noite?</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Ela suspirou e respondeu, impaciente:</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Eu moro na chácara da frente, do outro lado da estrada, e&#8230; Quer saber, não te interessa! Mas já que eu tô na </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>sua</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> chácara, vou dizer o que vim fazer aqui. Desconfio que os sujeitos dos tambores têm alguma coisa a ver com o sumiço do Seu Isaac. Por isso decidi que hoje viria investigar. Não podia imaginar que ia encontrar os </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>novos donos</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> da chácara&#8230; </span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Revirei os olhos, indignado com o modo idiota como ela dissera “novos donos”. Porém, decidi ignorar. Afinal, eu não estava ali para perder tempo com uma garota intrometida e metida a besta. Mesmo assim, arrisquei mais uma pergunta (quanto mais informações eu tivesse, melhor).</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Certo. Mas qual é a desses caras?</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Eu não sei. Começaram a aparecer por aqui desde a noite do desaparecimento do Seu Isaac. Por isso desconfio deles. Vêm uma vez por semana, sempre nas madrugadas de domingo. Fazem a fogueira, acendem as tochas, tocam os tambores e cantam músicas esquisitas, como essa que estão cantando agora.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Só então me dei conta de que eles cantavam uma canção. E era realmente estranha, tanto na melodia quanto na letra, proclamada em uma língua tão exótica que nem mesmo David (que era apaixonado por idiomas e gostava de estudar todos os que pudesse) conseguiu entender – esse, aliás, devia ter se tornado o motivo do interesse dele a respeito do que acontecia na clareira. Eu, no entanto, começava a cogitar algumas possibilidades. Se aqueles eventos na floresta fossem algum tipo de ritual religioso estranho, havia a chance de que os sujeitos estivessem envolvidos na morte do tio Isaac, o que seria algo horrível, por sinal, e um verdadeiro caso de polícia (e, não, eu não estava dando muito crédito à história de que meu tio-avô havia simplesmente sumido e dado como morto, num plano meticulosamente arquitetado por uma mente maligna com objetivos escusos).</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Eu coçava o queixo e mirava o vazio, enquanto minha mente era infestada de teorias. Entretanto, minha linha de raciocínio foi interrompida graças à voz irritante da garota.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Se estão pensando em espiar, não vão conseguir nada desse lado. Aliás, vão conseguir ser descobertos&#8230;</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">E o que sugere então, senhorita sabichona? – voltei ao tom sarcástico.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Você fala de um jeito tão esquisito, sabia? Mas o que eu sugiro, garotinho invocado, é que vocês espiem da colina que tem ali na frente. – ela respondeu, apontando na direção de uma pequena elevação mais à frente.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Garotinho? Ela não parecia ser mais velha que eu! Apesar do insulto, resolvi ignorar novamente. Sem dizer palavra, comecei a caminhar rumo à colina, fazendo sinal para que David me seguisse. Porém, ela nos interrompeu.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Mas é claro que eu </span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><em>também</em></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"> vou espiar dali. Por isso, se minha presença for um incômodo, é melhor acharem outro canto seguro pra espiar ou voltarem pro conforto do bercinho de vocês.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Agora ela havia passado dos limites!</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Escuta aqui&#8230;</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Já disse que não vou discutir. Não tenho tempo a perder.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Antes que eu respondesse, ela já havia dado passos largos (e silenciosos) na direção da colina. Lógico que eu não estava nem um pouco contente com a arrogância daquela sujeitinha, e comecei a pensar seriamente em vasculhar a floresta e achar outro lugar para ficarmos, de preferência bem longe daquela colina. David puxou o meu braço.</span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Ela tá certa. A gente veio investigar, não brigar. Eu vou pra lá. – ele disse, e foi para a colina sem esperar resposta.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Bufei e cruzei os braços, me recusando, a princípio, a ficar perto da garota metida. Mas como não havia outro remédio, me vi obrigado a me dirigir à bendita colina. Tudo bem que não sei se eu conseguiria achar o caminho de volta sozinho. Mas não foi por isso que desisti da ideia de encontrar outro lugar. Juro que não foi! Sabe como é, eu não poderia ir para outro lugar e deixar David ali. Se ele se perdesse (o que dificilmente aconteceria, mas eu preferia não correr o risco), ou se algo lhe acontecesse, eu estaria encrencado. </span></p>
<p align="JUSTIFY">— <span style="font-family:Arial,sans-serif;">Então, estão vendo alguma coisa? – perguntei, me agachando ao lado deles e espiando por entre os troncos das árvores.</span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;">Imaginei ter notado um sorriso de vitória no rosto da garota. Tudo bem. Com sorte, eu não teria o desprazer de encontrá-la outra vez depois daquela noite.</span></p>
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		<title>Na calada da noite, os barulhentos grilos perturbam meu sono</title>
		<link>http://pomonegro.wordpress.com/2012/01/11/na-calada-da-noite-os-barulhentos-grilos-perturbam-meu-sono/</link>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 19:51:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samuel Stein</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de Samuel Stein]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg"><img class="alignright  wp-image-29" title="Novo post" src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg?w=200&#038;h=200" alt="Post" width="200" height="200" /></a></p>
<p>Claro. Como eu fora tão ingênuo a ponto de acreditar que Uri ficaria calado por tanto tempo? Nem parecia que eu já convivia com ele há extensos seis anos. O pior, acreditem, não era o fato de ele ter desaparecido. Confesso que algumas vezes eu mesmo desejava que ele sumisse, ainda que fosse por alguns minutos. O problema, no caso, era que se Uri resolvesse se perder naquela mansão, quem levaria a bronca da mamãe seria <em>eu</em>. Como vocês sabem, os filhos mais velhos sempre são os culpados.</p>
<p>&nbsp;<br />
– Uri! Uri! Para com isso, agora não é hora de brincar. A mamãe mandou a gente dormir. – gritei, já prevendo que gastaria meus pulmões à toa.</p>
<p>&nbsp;<br />
Gastei meus pulmões à toa. Provavelmente meu querido maninho já estaria longe dali naquele momento, por certo perambulando sem rumo pelos imensos corredores, fuçando cômodo após cômodo em busca de algo que pudesse destruir, até o momento em que fosse avistado pela mamãe, que então o traria para o quarto e arrancaria as minhas orelhas por não ter tomado conta dele. Legal.</p>
<p>&nbsp;<br />
Enquanto eu me distraíra imaginando toda a desventurada cena, David permanecera estanque diante da janela. Não sei o que podia haver de tão atraente naquela floresta escura, mas David não precisava de algo necessariamente interessante para se perder em seus pensamentos. De qualquer maneira, me irritei por ele ficar ali parado ignorando a situação. Tudo tem um limite!</p>
<p>&nbsp;<br />
– David! Não tá vendo que o Uri sumiu daqui? Me ajuda a procurar ele!</p>
<p>&nbsp;<br />
Ele sequer olhou para mim. Continuou virado para a janela, observando a interessantíssima coreografia que os galhos das árvores faziam ao serem balançados pelo vento. Bufei, resignado. Não podia contar com ele. Estava sozinho, mais uma vez. Dei dois passos em direção à porta, pronto para ir atrás da <em>coisinha</em> (um apelido carinhoso que dei ao Uri) e dar-lhe um beliscão assim que tivesse oportunidade.</p>
<p>&nbsp;<br />
– Eu sei. – ouvi a voz de David, e então parei e olhei para ele, que jazia diante da janela – Ele entrou ali.</p>
<p>&nbsp;<br />
David apontou com o indicador para o guarda-roupa. Revirei os olhos. Era típico do Uri fazer algo assim. Respirei fundo e caminhei até o móvel, abrindo logo uma das dezenas de portas que ele tinha (pois Uri não tinha deixado aberta a porta pela qual passara). O que encontrei naquela parte, porém, não foi a coisinha, mas sim uma fileira de grossos casacos de inverno pendurados em cabides. Tudo bem, temos invernos gelados no sul, mas aqueles casacos deviam ser exageradamente quentes. Curioso, retirei um deles ali de dentro. Era longo e bastante pesado, embora consideravelmente macio. Era imponente também – parecia digno da realeza de algum país europeu. Resolvi experimentá-lo e, para minha surpresa, me servia perfeitamente. Era como se tivesse sido feito sob medida para mim.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tirei o casaco (eu iria derreter se continuasse vestido com ele) e o recoloquei no cabide. Espiei para dentro do guarda-roupa, mas não pude ver nada, pois estava muito escuro. O jeito era entrar. Jurei que Uri ia me pagar por aquilo. Mas se ele não estivesse ali&#8230;</p>
<p>&nbsp;<br />
– Uri! – chamei, já caminhando por entre os casacos dentro do guarda-roupa (e obviamente tendo deixado a porta aberta atrás de mim) – Sei que você tá aqui. Anda, aparece, a gente tem que ir dormir.</p>
<p>&nbsp;<br />
Não houve resposta. Na verdade, não sei se ele chegara a me ouvir, pois os casacos talvez estivessem abafando minha voz. Com certo esforço, caminhei mais para  dentro, notando que a fileira de casacos não tinha fim. Não sei dizer por quanto tempo fiquei ali ou quantos centímetros consegui avançar, mas o fato era que eu parecia não estar nem perto de uma das extremidades do móvel. Com o coração um tanto acelerado e algumas gotas de suor escorrendo no rosto, comentei comigo mesmo:</p>
<p>&nbsp;<br />
– Esse guarda-roupa é enorme!</p>
<p>&nbsp;<br />
– Foi o que eu disse&#8230; – ouvi uma voz aguda, tipicamente melosa, perto de mim. Era Uri.</p>
<p>&nbsp;<br />
Uri estava choramingando, encolhido em um canto bem abaixo da fileira de casacos. Havia entrado ali e, ao ter fechado a porta, acabara se perdendo na escuridão e na imensidão do interior do móvel.</p>
<p>&nbsp;<br />
– Está vendo, isso é o que acontece por não parar quieto! Você não sabe que  não se deve se fechar dentro de um guarda-roupa? – o repreendi com razão.</p>
<p>&nbsp;<br />
Ele limitou-se a continuar choramingando (sabia que a culpa era dele mesmo) e então o segurei pela mão e fiz o caminho de volta, até avistar a luz que vinha da porta que eu deixara aberta. Saí com Uri do guarda-roupa e, graças ao susto que ele tomara ao ficar preso ali, não precisei dizer coisa alguma para que ele fosse para a cama. Pedi que David também fosse se deitar (ao que ele felizmente atendeu, por fim saindo da frente daquela janela), troquei de roupa, apaguei a luz e me joguei na cama. Enfim, o sono dos justos&#8230;</p>
<p>&nbsp;<br />
tum<br />
Tum<br />
TUM</p>
<p>&nbsp;<br />
Os grilos abrem frinchas no silêncio. Os grilos trincam as vidraças negras da noite.</p>
<p>&nbsp;<br />
Um barulho diferente me fez despertar, embora parecesse um pouco distante. Me sentei na cama, incomodado, ouvindo aquele som que parecia ser de&#8230; tambores? Esfreguei os olhos e procurei meu relógio. Já era madrugada. Quem eram os infelizes que resolveram ficar tocando tambor àquela hora? Deitei de novo e coloquei o travesseiro em cima da cabeça, tentando cobrir minhas orelhas. Não adiantou. Era como se os tambores estivessem retumbando dentro da minha cabeça e chacolhando até meu cérebro. Sentei novamente e suspirei.</p>
<p>&nbsp;<br />
– São eles! – David disse, já se sentando na cama. Provavelmente ele também não estava conseguindo dormir.</p>
<p>&nbsp;<br />
– <em>Eles</em> quem? – perguntei, em voz baixa para não acordar o Uri.</p>
<p>&nbsp;<br />
David apontou para a janela. Pulei da cama e fui até ela, David ao meu lado. Em um ponto distante, para além do bosque que ficava de frente para aquela parte da mansão (que era, na realidade, os fundos), um brilho forte, como que de várias tochas acesas, tingia a mata de um tom dourado. Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas tive certeza de que aquele local, ainda que um tanto afastado, fazia parte das terras do tio Isaac. Ou melhor, das <em>nossas</em> terras. A impressão que se tinha ao se olhar dali era que estavam fazendo uma enorme fogueira no meio da mata. E eu sabia muito bem que não se deve fazer fogueiras na mata!</p>
<p>&nbsp;<br />
Corri até minha mochila (por sorte ela estava no quarto) e peguei minha lanterna. Sim, é isso mesmo que vocês estão pensando. Eu não podia deixar aquilo barato. E se fosse algo perigoso? Um bando de criminosos ou coisa do gênero? Se eu descobrisse o que era, podia chamar a polícia a tempo de pegá-los. E, a propósito, não teria problema algum ir lá para fora àquela hora. Se pensarem bem, eu sequer estaria saindo do quintal de casa. Além disso, se tratava de uma genuína aventura!</p>
<p>&nbsp;<br />
– Eu também vou. – David disse, antes que eu tivesse falado qualquer coisa – Quero saber o que eles estão fazendo.</p>
<p>&nbsp;<br />
Não pude impedi-lo, embora eu preferisse ir sozinho. Se o deixasse ali, David podia dar com a língua nos dentes e aí eu estaria encrencado. Vestimos roupas adequadas, saímos do quarto e caminhamos silenciosamente pelo longo corredor escuro até chegarmos à escada. Com sorte todos estariam dormindo um sono profundo (inclusive os três mordomos esquisitos), apesar do barulho dos tambores (se é que eram mesmo tambores). Descemos a escada. Ali dentro, tudo permanecia em silêncio. Sorri e abri a porta da frente com cuidado, temendo que ela rangesse. Conseguimos. Agora, uma singela aventura nos aguardava&#8230;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pomonegro.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pomonegro.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pomonegro.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pomonegro.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pomonegro.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pomonegro.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pomonegro.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pomonegro.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pomonegro.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pomonegro.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pomonegro.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pomonegro.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pomonegro.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pomonegro.wordpress.com/60/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=60&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Cérbero (quero ver quem pega essa!)</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Nov 2011 18:57:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samuel Stein</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de Samuel Stein]]></category>
		<category><![CDATA[bebê]]></category>
		<category><![CDATA[camas]]></category>
		<category><![CDATA[mansão]]></category>
		<category><![CDATA[palácio]]></category>
		<category><![CDATA[quarto]]></category>
		<category><![CDATA[três mordomos esquisitos]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Minha vontade inicial ao vislumbrar o interior da mansão – aliás, mansão não, palácio! – foi subir aquelas escadas &#8230;<p><a href="http://pomonegro.wordpress.com/2011/11/30/cerbero-quero-ver-quem-pega-essa/">Continuar lendo &#187; </a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=55&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg"><img class="alignright  wp-image-29" title="Novo post" src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg?w=200&#038;h=200" alt="Post" width="200" height="200" /></a>Minha vontade inicial ao vislumbrar o interior da mansão – aliás, mansão não, <em>palácio</em>! – foi subir aquelas escadas correndo feito um doido e disparar pelos corredores do andar de cima, verificando cada um dos enormes cômodos até encontrar um que fosse do meu gosto para ser o meu quarto. Não tenham dúvida de que eu escolheria aquele que tivesse a melhor vista. Mas é claro que não pude fazer isso, pois do contrário meu pai me repreenderia e me faria descer no mesmo instante, além de me fazer passar vergonha na frente dos <em>funcionários</em>, que pelo visto haviam sido os empregados do tio Isaac. E agora seriam os nossos.</p>
<p>De qualquer modo, eu ainda não estava acreditando naquilo que meus olhos viam. Comecei a esperar o momento em que eu acordaria no meu antigo quarto, ao som irritante do despertador, e descobriria que tudo não passara de um sonho (que por sinal começara como um pesadelo). Mas, felizmente, aquilo era real; <em>muito</em> real. Tão real quanto um poema. A mansão – palácio – era um poema em si própria.</p>
<p>Fomos convidados pelos dois mordomos – ou melhor, pelos <em>três</em>, já que o terceiro, o que abrira o portão para nós, também já estava por ali – para uma volta pela mansão, a fim de que conhecêssemos nosso novo lar. Foi um pouco cansativo, na verdade, mas eu estava tão deslumbrado com o tamanho e com o esplendor daquela construção que sequer tive tempo de me sentir entediado com o minucioso <em>tour</em> pelos cômodos. Quem pareceu incomodado com isso foi David, que disparou, enquanto um dos mordomos nos apresentava a sala de jantar:</p>
<p>– Tô cansado. Quero dormir.</p>
<p>David era assim, sempre sincero. Às vezes isso provocava algumas situações constrangedoras, mas, fazer o que, esse era o jeito dele. Eu já estava acostumado. Afinal, já fazia anos que mamãe me dizia que David era especial e que eu tinha que ter paciência e aprender a lidar com ele. E acho que aprendi, no fim das contas, porque eu e David nos dávamos muito bem, do nosso jeito.</p>
<p>– Perdão, senhor&#8230; – mamãe começou a dizer, mas parou ao perceber que não sabia o nome do homem.</p>
<p>– Cathasach, madame. Chame-me Cathasach. E estes são Duvlin e Elisedh. – o mordomo respondeu, e os outros dois curvaram-se polidamente quando tiveram seus nomes mencionados.</p>
<p>Uau! Isso é o que eu poderia chamar de nomes exóticos. Preferi pensar que aqueles eram os sobrenomes e não os primeiros nomes deles. David deve ter pensado o mesmo, mas felizmente não abriu a boca. Mamãe continuou:</p>
<p>– Bem, Sr. Ca&#8230; <em>Cathasach</em>, poderia providenciar um quarto para os meninos irem descansar? Eles tiveram um dia cheio.</p>
<p>– Claro, madame. Agora mesmo.</p>
<p>Peraí! Como assim “para os meninos”? Eu ainda não queria dormir! Quem estava cansado era o David, não eu. Por que sempre tínhamos que fazer tudo em conjunto? Não me contive dessa vez. Precisei protestar.</p>
<p>– Mas mãe, eu não tô com sono. Quero continuar conhecendo&#8230;</p>
<p>– Já está tarde, Samuel. Você <em>vai</em> para a cama. Já. – mamãe retrucou, sem nem me deixar terminar.</p>
<p>Emburrado, cruzei os braços e fechei a cara. Não era para menos. Mamãe sempre fazia isso. Puxa, eu não era mais bebê! David e Uri ainda eram crianças, tudo bem, mas eu não! Porém, não adiantava dizer nada. Se eu falasse alguma coisa, seria pior. Ainda de cara amarrada, segui o mordomo que ficara encarregado de nos conduzir até um dos quartos – o Sr. Duvlin. E lá ficaríamos <em>todos juntos</em>. Ó, céus.</p>
<p>Está certo, o quarto era bem grande. E eventualmente havia ali três camas prontas, como se já estivessem nos esperando – bem, eles <em>estavam</em> mesmo – e como se já soubessem que nós três ficaríamos em um mesmo quarto. Não sei como haviam deduzido isso, mas concluí que meu pai lhes tinha dito algo a respeito anteriormente. O tamanho das camas era proporcional ao tamanho do quarto. Isso significa que Uri, David e eu caberíamos tranquilamente em uma só cama. Felizmente não foram tão mãos de vaca com isso e cada um de nós poderia ficar com uma exclusiva. A estrutura e a cabeceira dos leitos eram de uma madeira nobre maciça e escura, não sei dizer de que tipo porque não sou <em>madeirólogo</em>. Os colchões eram altos e macios; pareciam perfeitos para darmos uns pulos de vez em quando. As três camas estavam dispostas lado a lado com as cabeceiras encostadas na parede direita do quarto. Diante delas, na parede oposta, uma espécie de guarda-roupa – aparentemente feito da mesma madeira das camas – com uma infinidade de portas e gavetas. Nenhuma TV. Não era mau para um quarto de palácio, mas achei que poderíamos <em>personalizá-lo</em> um pouco no dia seguinte.</p>
<p>– Os senhores podem acomodar-se. Se precisarem de algo, basta chamar. – disse o Sr. Duvlin, com aquele tom seco típico dos mordomos de filmes de detetive. Não sei se fazia isso intencionalmente, mas dessa forma sua aparência tornava-se ainda menos amigável. De qualquer modo, achei engraçado ser chamado de “senhor”.</p>
<p>– Eu preciso de algo. – David disse, e eu quis puxá-lo para tapar sua boca, mas já era tarde.</p>
<p>O Sr. Duvlin, que já tinha nos dado as costas, girou lentamente sobre o pequeno corpo – ele não era muito mais alto que eu – e assentiu fazendo um gesto vagaroso com a cabeça. Ele encarou David de maneira paciente, e só então notei que seu nariz era tão comprido e curvo que parecia mais um bico de corvo.</p>
<p>– Eu preciso fazer uma pergunta. – David prosseguiu, ajeitando os óculos no rosto – Por que o nome desta chácara é Pomo Negro? Não existem pomos negros. A menos que tenham sido queimados pelo fogo ou pela geada.</p>
<p>O mordomo sorriu com satisfação, como se a pergunta feita por David o agradasse por algum motivo. Ignorando o fato de que o Sr. Duvlin ficou ainda mais esquisito sorrindo, concluí que a pergunta do meu irmão fora pertinente, afinal. Eu não tinha parado para pensar nisso. Pomo Negro era sem dúvida um nome curioso para uma chácara. Geralmente as pessoas batizavam suas chácaras como “Sítio do Tio João”, “Chácara da Boa Esperança”, “Chácara das Gabirobas”, “Ranchinho Fundo Bem Pra Lá do Fim do Mundo”, etc.</p>
<p>– Ótima pergunta, senhor. – uma voz ao fundo respondeu antes que o Sr. Duvlin se pronunciasse. Era o Sr. Elisedh, cuja figura, não menos esquisita, mas um pouco mais simpática, surgia pela porta aberta – Ao contrário do que se possa imaginar, o nome não tem qualquer relação com os frutos conhecidos como pomos. Bem, é provável que não saibam, mas esta chácara foi fundada por um colono espanhol há muitos, muitos anos. O casarão em que estamos foi construído depois, pelos descendentes daquele homem. “Pomo”, em espanhol, quer dizer “maçaneta”. Se notarem, os pomos, ou melhor, maçanetas de todas as portas do casarão são feitos de um metal enegrecido. Isto chamou a atenção dos visitantes – a chácara havia se transformado numa espécie de museu antes de ser comprada pelo Sr. Isaac Stein –, que então passaram a chamar o local pelo nome que tem hoje. Satisfeito, senhor?</p>
<p>David, boquiaberto, meneou a cabeça afirmativamente. Depois virou-se e caminhou até a janela, como se já não houvesse mais ninguém no quarto além dele. Eu estava acostumado com isso, mas os homens talvez estranhassem. No entanto, eles apenas mantiveram-se olhando para nós, como que esperando que disséssemos algo. A única diferença era que o Sr. Duvlin agora tinha o rosto num tom avermelhado e com uma expressão sutilmente menos amistosa. Concluí que ele não devia estar contente por ter sido interrompido pelo Sr. Elisedh.</p>
<p>Após alguns segundos de silêncio constrangedor, dei um sorriso meio sem graça e disse:</p>
<p>– Tudo bem, era só isso mesmo. Vocês podem ir. Obrigado, Sr. Duvlin. Obrigado, Sr. Elisedh.</p>
<p>– Disponham. – os dois responderam em uníssono, curvando levemente o tronco em um gesto quase coreografado. Então nos deram as costas e saíram, fechando a porta do quarto logo em seguida.</p>
<p>Esquisitices à parte, o fato era que agora eu seria obrigado a me deitar sem estar com um pingo de sono, e, pior de tudo, sabendo que o sonho de ter um quarto só para mim estava se esfarelando feito uma estátua de areia. Ó, vida cruel. Se dependesse dos meus pais, eu teria de passar o resto dos meus dias colado nos meus irmãos. Se ao menos Uri não fosse tão <em>hiperativo</em>&#8230;</p>
<p>Falando nisso, só então me dei conta de que meu irmão caçula não havia se manifestado durante a conversa toda, o que era bem incomum. Olhei para as camas, imaginando que ele devia estar esparramado em uma delas e que provavelmente pegara no sono. Ledo engano.</p>
<p>David ainda olhava pela janela, como se alguma coisa naquela escuridão lá fora lhe fosse de algum interesse. As camas estavam vazias. E no restante do quarto, que por maior que fosse eu podia enxergar totalmente dali, não havia mais ninguém. Uri havia sumido.</p>
<p>– Ah não&#8230; – foram as únicas palavras que me escaparam dos lábios.</p>
<p>&nbsp;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pomonegro.wordpress.com/55/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pomonegro.wordpress.com/55/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pomonegro.wordpress.com/55/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pomonegro.wordpress.com/55/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pomonegro.wordpress.com/55/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pomonegro.wordpress.com/55/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pomonegro.wordpress.com/55/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pomonegro.wordpress.com/55/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pomonegro.wordpress.com/55/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pomonegro.wordpress.com/55/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pomonegro.wordpress.com/55/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pomonegro.wordpress.com/55/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pomonegro.wordpress.com/55/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pomonegro.wordpress.com/55/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=55&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Halloween</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Oct 2011 19:09:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>David Stein</dc:creator>
				<category><![CDATA[Curiosidades e informações adicionais]]></category>
		<category><![CDATA[celtas]]></category>
		<category><![CDATA[escoceses]]></category>
		<category><![CDATA[Halloween]]></category>
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		<description><![CDATA[A pedido do meu irmão Samuel, realizei uma breve pesquisa sobre o tema “Halloween” e eis que agora irei dividi-la &#8230;<p><a href="http://pomonegro.wordpress.com/2011/10/31/halloween/">Continuar lendo &#187; </a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=42&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438981.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-44" title="Curiosidades" src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438981.jpg?w=180&#038;h=180" alt="" width="180" height="180" /></a></p>
<p>A pedido do meu irmão Samuel, realizei uma breve pesquisa sobre o tema “Halloween” e eis que agora irei dividi-la com vocês, resumidamente.</p>
<p>A palavra “halloween” vem do inglês “<em>All-Hallows-Even(ing)</em>”, ou seja, véspera de Todos os Santos (um feriado cristão católico celebrado em diversos países, inclusive o Brasil), e corresponde à última noite do mês de outubro. Embora o termo seja recente, datado de meados do século XVIII, a celebração é muito mais antiga. Há algumas controvérsias quanto a sua real origem. Alguns estudiosos dizem que o Halloween tem origem no festival romano de Pomona, deusa das frutas e das sementes. Mas é provável que ele tenha se originado no festival celta do Samain (hoje <em>Samhain</em>, no irlandês moderno), que provavelmente marcava o encerramento do ano e o subsequente início do novo ano. Tratava-se, de qualquer forma, de uma data importante, visto que apontava o início do inverno.</p>
<p>Pelo fato de se tratar de um período de transição (fosse entre estações ou entre anos), os celtas acreditavam que o Samain era um período em que se estreitavam as fronteiras entre este mundo (no caso, o “mundo real” em que vivemos) e o “outro mundo”, uma espécie de mundo sobrenatural onde viviam os deuses e outros seres sobrenaturais, e para onde iam as almas dos mortos. Assim, seria facilmente possível cruzar essas fronteiras nesse período, o que dava margem ao acontecimento de certos eventos sobrenaturais. Por esse motivo, algumas tribos celtas costumavam acender enormes fogueiras e invocar seus deuses, realizando sacrifícios de animais, e provavelmente até mesmo humanos, com o intuito de manter afastados os espíritos – mortos, fadas e bruxas – que eventualmente transpassassem a fronteira para o mundo físico.</p>
<div id="attachment_47" class="wp-caption alignright" style="width: 154px"><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900436203.png"><img class="size-full wp-image-47" title="jack-o'-lantern" src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900436203.png?w=529" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">jack-o&#039;-lantern, um dos principais símbolos do Halloween</p></div>
<p>Pelo mesmo motivo, realizava-se práticas de adivinhação. De acordo com o historiador grego Diodoro Sículo, os druidas – sacerdotes celtas – escolhiam um prisioneiro de guerra e apunhalavam-no no peito com um machado. Então, eles tentavam adivinhar o futuro observando as convulsões viscerais e o jorro de sangue do sacrifício.</p>
<p>O costume de vestir máscaras (fantasias) e sair pelas ruas pedindo guloseimas e ameaçando realizar travessuras àqueles que não contribuem é proveniente de tradições irlandesas e escocesas, que foram muito difundidas nos Estados Unidos, graças à massiva imigração irlandesa no século XIX. Essas tradições remontam a práticas medievais, ou ainda, possivelmente, a um período anterior.</p>
<p>Concluo este breve estudo com uma observação. Não participo de festinhas de Halloween, nem saio de casa na noite do dia 31 de outubro (no caso, hoje) para pedir doces por aí, porque sou judeu, não celta. Aliás, por que tantas pessoas que também não são celtas comemoram este feriado? Para encerrar, deixo algo que li em um site e que gostei bastante:</p>
<p>“Muitas pessoas comparam o Halloween com Purim [feriado judaico, em que nós judeus vestimos fantasias e enviamos presentes, geralmente doces e frutas, uns aos outros]. Apesar das máscaras e fantasias, essas celebrações são muito diferentes! O que acontece no Halloween? As crianças vão de porta em porta dizendo: ‘Doce ou travessura!’. De onde vem essa expressão? A origem é uma ameaça: ‘Se você não nos der doces, nós vamos lhe fazer uma travessura!’. Mas em Purim, em vez de sair por aí exigindo presentes, as crianças saem <em>entregando</em> presentes. Que diferença!”</p>
<p>Obs.: Se você tiver dúvidas ou quiser saber mais sobre o Halloween, deixe sua pergunta nos comentários abaixo. Quando for possível e se eu considerar pertinente, respondo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pomonegro.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pomonegro.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pomonegro.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pomonegro.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pomonegro.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pomonegro.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pomonegro.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pomonegro.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pomonegro.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pomonegro.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pomonegro.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pomonegro.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pomonegro.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pomonegro.wordpress.com/42/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=42&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O casebre paupérrimo do tio Isaac (leia isto com ironia)</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 00:57:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samuel Stein</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de Samuel Stein]]></category>
		<category><![CDATA[barracas pra quê?]]></category>
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		<category><![CDATA[tio Isaac]]></category>

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		<description><![CDATA[Um cara bem alto e magricelo, já aparentando certa idade, foi abrir o portão para nós. Trajado a rigor, ele &#8230;<p><a href="http://pomonegro.wordpress.com/2011/10/03/o-casebre-pauperrimo-do-tio-isaac-leia-isto-com-ironia/">Continuar lendo &#187; </a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=28&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY"><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-29" title="Novo post" src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mc900438980.jpg?w=180&#038;h=180" alt="Post" width="180" height="180" /></a><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Um cara bem alto e magricelo, já aparentando certa idade, foi abrir o portão para nós. Trajado a rigor, ele parecia aqueles mordomos de filme de suspense, ainda mais depois de ter surgido ali do nada, em meio às sombras. Eu teria ficado com medo, ou melhor, </span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;"><em>receoso</em></span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;"> se não tivesse visto meu pai ligar para eles há pouco avisando que já estávamos chegando. Bom, devo dizer que não sei por que o cara se vestia daquele jeito para morar no meio do mato, mas gosto é gosto, não é? Talvez ele só quisesse nos impressionar.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY">– <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Você&#8230; quer uma carona até&#8230; </span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;"><em>lá</em></span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">? – papai perguntou a ele, apontando para um ponto qualquer do caminho de pedras entre as árvores que supostamente levava à casa, ou à </span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;"><em>coisa </em></span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">que o tal tio Isaac chamava de casa.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY">– <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Não, obrigado, senhor. Não é longe. Posso ir caminhando. A propósito, a garagem já está pronta para receber seu carro. Fica à direita.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Puxa, as pessoas que trabalhavam ali eram rápidas mesmo. Papai, enfim, seguiu com o carro pela estradinha de pedra. Quanto a mim, acho que estava começando a entender o significado de “tinha uma pedra no meio do caminho”. Só que no meu caso, eram </span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;"><em>várias</em></span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;"> pedras no caminho. Fechei os olhos enquanto ainda via apenas árvores ao redor. Eu queria evitar o choque súbito de descobrir que dali em diante teria que morar em uma casa de madeira podre cheia de buracos no telhado e nas paredes, cheirando a pó e bolor. No inverno devia ser terrível. Se fosse o caso – e eu estava certo de que seria – eu iria preferir ficar em uma barraca. </span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Senti quando papai parou o carro. Mamãe sussurrou algo como “Meu Deus!” e isso fez meu sangue gelar. Agora era que eu não abria os olhos de jeito nenhum. Eu estava prestes a sofrer mais um trauma, ó céus. O que eu havia feito de tão ruim para que aquilo estivesse acontecendo comigo? É&#8230; Que queres, meu Amor, se é isto a vida! Saí do carro com os olhos fechados, segurando no braço de David, meu irmão do meio, logo após ter pedido que ele me conduzisse, ignorando o fato de que ele não gostava que o tocassem.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY">– <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Deixe de ser bobo, Samuel. Abra esses olhos! – papai disse ao perceber o que eu estava fazendo.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Eles queriam me torturar, era isso. Não bastasse terem me forçado a ficar longe dos meus amigos, das minhas coisas, ainda queriam me esfregar na cara aquela fatalidade. Não, eu não iria ceder. Manteria meus olhos fechados e atravessaria aquela fase negra na escuridão total. David me serviria de guia quando eu precisasse, já que para ele aquilo tudo parecia não fazer diferença, apesar das mudanças bruscas (David não lidava muito bem com mudanças). Mas, claro, papai insistiu, usando um tom de voz bem mais ameaçador, e tive que abrir meus olhos. O susto quase me fez cair de costas.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Permitam-me fazer agora uma breve pausa para algo que devia ter feito desde o início (e que acabei esquecendo): apresentar minha família. Papai e mamãe se conheceram bem jovens, ainda na época em que estavam no colégio. Não se apaixonaram logo de cara, mas também não se detestaram, como acontece nos filmes. Conviveram por um bom tempo até que mamãe descobriu que gostava do papai, e só mais tarde papai descobriu que também gostava da mamãe. Então ele pediu mamãe em namoro. Alguns meses depois eles noivaram. E assim ficaram até que papai criou coragem para pedir a mão da mamãe em casamento. Vovô concordou (mesmo papai tendo se atrapalhado todo para falar) e enfim eles se casaram.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Uma palavra morre quando é dita, dir-se-ia. Pois eu digo que ela nasce nesse dia.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Primeiro nasci eu. Isso foi há longos doze anos. Sou Samuel Stein, muito prazer. Creio que não preciso falar muito sobre mim agora, pois é mais interessante que vocês me conheçam aos poucos. Dois anos depois de mim, veio David. David era um garoto muito inteligente – e quando digo “muito” é muito, mas muito mesmo. David tem seus problemas e limites, sobre os quais devo escrever bastante futuramente, mas sempre nos demos muito bem. Por fim, bem mais tarde, nasceu Uri, o caçula. Ele é o mais agitado da família, por assim dizer, não sei se pelos 6 anos de idade ou se por pura </span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">traquinice</span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">. Costumamos chamá-lo de Grilo Falante ou de Matraca-Trica, por motivos que vocês já devem ter imaginado.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Bem, são essas as pessoas que precisam conhecer, por ora. [É óbvio que outros importantes personagens surgirão durante a história.]</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Voltemos, então, à cena do espanto: quando abri meus olhos e vi a casa em que o tio Isaac havia morado e que agora seria nossa. Eu disse </span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;"><em>casa</em></span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">? Eu tinha cogitado dormir em uma barraca? Esqueçam o que eu disse. Aquilo ali na minha frente não era uma casa. Era uma mansão. </span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Vocês não leram errado. E meus olhos não viam apenas uma miragem. A casa do tio Isaac era uma mansão gigantesca: três andares, uma infinidade de janelas – tantas que não pude contar à primeira vista – e uma porta enorme na entrada, feita de madeira nobre (conforme meu pai constatou) e repleta de </span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">detalhes entalhados meticulosamente</span></span><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">. Diante da porta havia uma imponente escada de mármore branco, e aos pés dela uma fonte d’água em cujo centro jaziam curiosas esculturas em pedra: um homem e uma mulher dispostos lado a lado, ambos nus; abaixo deles havia a figura da cabeça de um leão, em cuja juba os pés das estátuas do homem e da mulher repousavam; da bocarra aberta do leão jorrava a água que enchia a fonte, que era cercada como uma piscina por uma estrutura oval de cerca de 1 metro de altura, feita de um mármore de tom prateado.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Subimos a escada, toda iluminada (assim como a mansão, que resplandecia na escuridão da noite), e no mesmo instante as portas foram abertas. Por trás delas surgiram dois homens vestidos de maneira tão elegante quanto aquele que nos abrira o portão – terno preto impecável, camisa branca, sapatos de couro reluzentes e até mesmo luvas brancas nas mãos. Não dei muita bola para isso porque o que estava me chamando a atenção naquele momento era o interior da mansão. Já de cara avistei uma escadaria enorme – mesmo! –, digna de um palácio como aqueles que vemos nos filmes e muito, muito mais bonita que a do Titanic.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY">– <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">Sejam bem-vindos, Sr. Stein e família. – os dois disseram, em uníssono, enquanto dávamos os primeiros passos para dentro do novo lar.</span></span></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><span style="font-size:small;">A única coisa em que eu conseguia pensar era que pelo visto eu finalmente iria poder ter meu próprio quarto, exclusivo. E imaginem o tamanho dos quartos daquele casarão&#8230; É, talvez Pasárgada não fosse tão ruim assim. Ali eu seria amigo do rei. Isso se não fosse o próprio.</span></span></p>
<div id="attachment_34" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mansion21.jpg"><img class="size-medium wp-image-34" title="Pittock Mansion" src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/10/mansion21.jpg?w=300&#038;h=224" alt="Mansion" width="300" height="224" /></a><p class="wp-caption-text">Nosso novo lar é mais ou menos assim</p></div>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pomonegro.wordpress.com/28/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pomonegro.wordpress.com/28/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pomonegro.wordpress.com/28/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pomonegro.wordpress.com/28/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pomonegro.wordpress.com/28/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pomonegro.wordpress.com/28/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pomonegro.wordpress.com/28/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pomonegro.wordpress.com/28/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pomonegro.wordpress.com/28/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pomonegro.wordpress.com/28/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pomonegro.wordpress.com/28/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pomonegro.wordpress.com/28/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pomonegro.wordpress.com/28/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pomonegro.wordpress.com/28/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=28&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Novo post</media:title>
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			<media:title type="html">Pittock Mansion</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>Novo relato saindo logo, logo!</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 20:22:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samuel Stein</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Espero que esteja tudo bem com vocês! Consegui acesso à internet, finalmente, e vou poder postar eu mesmo meu novo &#8230;<p><a href="http://pomonegro.wordpress.com/2011/09/30/novo-relato-saindo-logo-logo/">Continuar lendo &#187; </a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=21&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/09/mm900254407.gif"><img class="alignleft size-full wp-image-22" title="enfim conectado..." src="http://pomonegro.files.wordpress.com/2011/09/mm900254407.gif?w=529" alt="Internet, viva! \o/"   /></a>Espero que esteja tudo bem com vocês! Consegui acesso à internet, finalmente, e vou poder postar eu mesmo meu novo relato. Ele já está a caminho! Aguardem!</p>
<p>Obs.: Lembrar de <strong>não postar </strong>meus lembretes e notas junto com o texto.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pomonegro.wordpress.com/21/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pomonegro.wordpress.com/21/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pomonegro.wordpress.com/21/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pomonegro.wordpress.com/21/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pomonegro.wordpress.com/21/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pomonegro.wordpress.com/21/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pomonegro.wordpress.com/21/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pomonegro.wordpress.com/21/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pomonegro.wordpress.com/21/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pomonegro.wordpress.com/21/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pomonegro.wordpress.com/21/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pomonegro.wordpress.com/21/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pomonegro.wordpress.com/21/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pomonegro.wordpress.com/21/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=21&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">enfim conectado...</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>Prólogo – como tudo começou (de uma maneira bem resumida, mas poeticamente trabalhada, porque ainda tenho que ajeitar meu quarto)</title>
		<link>http://pomonegro.wordpress.com/2011/09/01/prologo/</link>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 20:07:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jacob Galon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de Samuel Stein]]></category>
		<category><![CDATA[advogado]]></category>
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		<description><![CDATA[As nuvens escuras cobriram o céu. Logo começou a chover, com direito a trovoadas e relâmpagos. Agora era tarde demais. &#8230;<p><a href="http://pomonegro.wordpress.com/2011/09/01/prologo/">Continuar lendo &#187; </a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=9&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As nuvens escuras cobriram o céu. Logo começou a chover, com direito a trovoadas e relâmpagos. Agora era tarde demais. Quem sabe a chuva pudesse ter evitado o desastre. Mas não adiantava mais. Tudo que ela fazia agora era nos deixar ali encharcados, desolados, além de levantar uma coluna de fumaça negra cheirando a álcool que se desprendia da pilha de concreto, madeira, metal e plástico carbonizados, e que subia alto, mesclando-se às nuvens no céu.</p>
<p>– Pra onde a gente vai agora? – Uri, meu irmão caçula, lançou ao vento uma pergunta talvez mais profunda do que ele imaginava, tão profunda quanto “E agora, José?”.</p>
<p>Silêncio. O vento tomou as palavras dos pequenos lábios de Uri e as carregou para longe, bem longe dos ouvidos dos nossos pais. O fogo destruíra tudo, os móveis, as roupas, a garagem, a casa. Talvez tivesse destruído também as palavras que naturalmente deveriam sair da boca do papai. Era compreensível. Se você já perdeu sua casa e todas as suas coisas num incêndio devastador provavelmente sabe o que estávamos sentindo. Alguém nos diria que o importante era que ainda tínhamos uns aos outros e essa ladainha toda. Mas é muito fácil dizer isso se não foi você quem teve sua vida transformada num amontoado de cinzas. Naquela noite dormiríamos na casa dos nossos vizinhos da frente, amigos antigos que prontamente nos ofereceram abrigo. No dia seguinte, nossa vida mudaria da água para o vinho – e isso não necessariamente significa algo bom.</p>
<p>Há cerca de dois meses, papai recebera a visita de um sujeito que dissera ser o responsável pelo testamento do tio Isaac, um velhote que vivia sozinho no meio do mato e que já há muito tempo não tinha contato com a família. O tal tio Isaac havia adoecido e passado dessa para a melhor, deixando o referido testamento aos cuidados daquele homem, que fora seu advogado.</p>
<p>– Conhece a chácara na Lapa, não? Aquela em que vivia o seu tio, o Sr. Isaac&#8230;</p>
<p>– Bem, nunca estive lá, mas dizem que é muito bonita&#8230; – papai respondeu gesticulando com as mãos, como costumava fazer quando ficava confuso ou curioso.</p>
<p>– Sim, ela é sim. E agora ela irá pertencer ao senhor e sua família. Parabéns, Sr. Stein!</p>
<p>Papai até engasgou na hora. A discussão toda que se seguiu foi em vão, pois a tal chácara acabou sendo mesmo passada para o nome dele, que teve de aceitar isso contrariado, “por respeito à memória do falecido tio Isaac”. Até aí tudo bem. Tirando o fato de que passaríamos a ter uma chácara para administrar – embora os “empregados” fossem continuar trabalhando lá, como garantira o advogado –, eu havia gostado da ideia de ter um lugar diferente para passar alguns fins de semana ou uma parte das férias, por mais que esse lugar fosse, bem, <em>no meio do mato</em>. Se tivesse uma piscina já estaria ótimo.</p>
<p>– Não, não e não! – foi minha resposta, porém, ao ouvir da boca de meu pai naquela manhã, na casa dos vizinhos, as palavras que já imaginava que ouviria, embora estivesse torcendo para que nunca fossem ditas.</p>
<p>Sim, agora que tínhamos perdido nossa casa e nossas coisas no incêndio, meus pais tiveram a brilhante ideia de nos mudarmos para a chácara por alguns meses, pelo menos enquanto não pudéssemos reconstruir tudo. Precisávamos de tempo para nos <em>reerguermos das cinzas</em>, palavras deles. O fato era que eu perderia muitas coisas tendo que <em>morar </em>naquela chácara: as partidas de videogame na casa do Rafael – meu melhor amigo –, os passeios de bicicleta com a galera no fim de semana, a internet e a TV a cabo. Desastre total. Tentaram me convencer com uma lista de coisas boas que eu poderia encontrar lá, mas sabe como é. As aves que lá gorjeiam, não gorjeiam como cá.</p>
<p>Como você já deve estar imaginando, ninguém deu bola para o que eu achava ou deixava de achar. No final daquela tarde de sábado, arrumamos nossas coisas – o pouco que havia sobrado – e partimos para a chácara, que ficava lá mesmo onde Judas perdeu as botas. Conformado, não me restou nada além de ter que aceitar que talvez a mudança não fosse tão ruim. Ao menos continuaria vendo Rafael e a galera no colégio, embora as <em>viagens </em>de ida e volta fossem ser longas. Fui-me embora pra Pasárgada.</p>
<p>Já estava escuro quando chegamos. Depois de um logo percurso numa estradinha de terra, papai parou o carro em frente a um portão velho de madeira. Não consegui ver nada além de uma cerca de arame farpado e uma enorme mancha escura que devia ser um bosque imenso. Por cima do portão, uma tábua, suspensa por cordas de arame presas a galhos de árvores, trazia entalhadas as seguintes palavras: “Chácara Pomo Negro”. Belo nome. Um vento gelado soprava, balançando a placa, e o tempo começava a esfriar. Arrepios percorreram minha espinha. Só esperava não ter que dormir em uma barraca ou num colchão poeirento dentro de uma casa caindo aos pedaços&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Obs.: Postado excepcionalmente por Jacob Galon porque ainda estou sem internet. Ó, vida&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>|*Nota: Reservar mais espaço para apresentações e poesia no próximo registro. É preciso convencer o leitor da <strong>literariedade</strong> do texto.|</p>
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		<title>Olá, mundo!</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Aug 2011 19:58:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jacob Galon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[chácara]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[herança]]></category>
		<category><![CDATA[início]]></category>
		<category><![CDATA[mistério]]></category>
		<category><![CDATA[suspense]]></category>

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		<description><![CDATA[Olá! Este blog trará, em capítulos postados mensalmente [a princípio], a intrigante história dos Stein [minha família], que receberam de &#8230;<p><a href="http://pomonegro.wordpress.com/2011/08/26/ola-mundo/">Continuar lendo &#187; </a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pomonegro.wordpress.com&amp;blog=26619693&amp;post=1&amp;subd=pomonegro&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olá!</p>
<p>Este blog trará, em capítulos postados mensalmente [a princípio], a intrigante história dos Stein [minha família], que receberam de herança de um parente distante uma misteriosa chácara, para a qual são forçados [reforçar esta palavra] a se mudar provisoriamente [aham...] após um estranho incêndio consumir a casa em que viviam em Curitiba e todos os bens que possuíam. Aventura, mistérios, suspense e um enigma cuja resolução pode trazer revelações perturbadoras para a família&#8230; [eu que o diga] Acompanhe, em breve, aqui!</p>
<p>É importante reforçar, apenas, que todos os textos postados neste blog são de autoria de Jacob Galon [mas hein?], protegidos por direitos autorais [ah, isso sim!]. Portanto, é vedada a cópia e reprodução de trechos ou dos textos na íntegra sem a devida permissão do autor [entenderam, né?].</p>
<p>Além disso, trata-se de uma obra de ficção [baseada em fatos reais]. Os eventos e personagens presentes nesta não descrevem a realidade e <em>não são</em> baseados em fatos ou pessoas reais [como assim? Você está me contradizendo!], embora o autor possa se utilizar eventualmente destes para situar a história em seu determinado contexto [tudo o que vou escrever aqui aconteceu <em>mesmo</em>, tá bom?].</p>
<p>Feitos os esclarecimentos, vamos à história!</p>
<p>Prepare-se para a jornada! Boa leitura!</p>
<p>Jacob Galon [e Samuel Stein, famoso poeta do século XXI]</p>
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